“Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão.
Flores, lua, olhos, lábios.
Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido.
Eu não consigo;
A ironia devora as palavras.
É a maneira mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas.
Mas mesmo assim, nesse instante, uma enorme lua está despontando na minha janela.
Aqui ela não é autêntica.
Minha casa é longe.
Me permita ser sentimental..."
Fui ver a peça "não sobre o amor", com a direção de Felipe Hirsch. A peça começa justamente com esses versos. Baseada no livro do russo Victor Shklovsky ("Zoo, or letters not about love"), a peça trata do diálogo (não) amoroso entre o escritor russo no exílio (ou melhor, em Berlim) e sua amada Alya (na realidade, Elsa Triolet), em seu país natal.
O que chama atenção em primeiro lugar é o cenário. Provavelmente é a primeira peça de câmara que vejo. Mas não é só isso; o cenário desafia a lei da gravidade... literalmente. A cama está fixada na parede, assim como a cadeira e a escrivaninha. A porta está ao contrário, a janela também, todos em lugares incomuns. Há projeção de textos e imagens, recurso freqüente nas peças atualmente, mas que gosto muito. A cenografia no geral é sensacional. Os atores são bons, em especial o Leonardo Medeiros (o mesmo dos filmes "não por acaso" e "cabra cega").
Confesso que gostei do texto, mas saí do teatro com a sensação de que faltou algo. Deve ter sido porque me empolguei em excesso com a peça antes de ir vê-la (vide momento catártico em remota sexta-feira). Acrescenta-se o fato de o texto ser denso, então é normal sair com uma sensação estranha. Não é fácil não escrever sobre o amor. Não é fácil pedir para alguém não escrever sobre o amor. Não é fácil não amar alguém que te ama tanto. Não é fácil amar tanto alguém que não te ama...
É impressionante como o "não escrever" sobre o amor pode transparecer tanto amor por trás. Também gostei das reflexões sobre o russo fora de sua terra natal. "Um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar". Sim.
Acho que, de certa maneira, a peça encerrou a tal catarse. É engraçado como tudo fazia sentido enquanto estava no meio da crise, mas agora estou de volta à normalidade e já me esqueci de tudo. Talvez quisesse esquecer tudo. Meu ego fala mais forte e põe seus mecanismos de defesa em execução.
Entender o amor? ninguém entende. Não foi feito para entender. Assim como peças de teatro e obras de arte: não se deve procurar significados racionais nelas. Para mim, teatro (no caso específico do post) sempre foi uma questão de sentidos, o que me provocou naquele momento, algo intransitivo. O amor também é assim. Por isso, não é possível não escrever sobre o amor quando se ama; uma simples reflexão sobre o tempo hoje pode transbordar de amor.
Não há explicação para o inexplicável; pode ser uma saída fácil, sim. Mas é a conclusão que me basta por hoje. Clichês são fundamentais e me perseguem. pra que fugir, então?
Flores, lua, olhos, lábios.
Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido.
Eu não consigo;
A ironia devora as palavras.
É a maneira mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas.
Mas mesmo assim, nesse instante, uma enorme lua está despontando na minha janela.
Aqui ela não é autêntica.
Minha casa é longe.
Me permita ser sentimental..."
Fui ver a peça "não sobre o amor", com a direção de Felipe Hirsch. A peça começa justamente com esses versos. Baseada no livro do russo Victor Shklovsky ("Zoo, or letters not about love"), a peça trata do diálogo (não) amoroso entre o escritor russo no exílio (ou melhor, em Berlim) e sua amada Alya (na realidade, Elsa Triolet), em seu país natal.
O que chama atenção em primeiro lugar é o cenário. Provavelmente é a primeira peça de câmara que vejo. Mas não é só isso; o cenário desafia a lei da gravidade... literalmente. A cama está fixada na parede, assim como a cadeira e a escrivaninha. A porta está ao contrário, a janela também, todos em lugares incomuns. Há projeção de textos e imagens, recurso freqüente nas peças atualmente, mas que gosto muito. A cenografia no geral é sensacional. Os atores são bons, em especial o Leonardo Medeiros (o mesmo dos filmes "não por acaso" e "cabra cega").
Confesso que gostei do texto, mas saí do teatro com a sensação de que faltou algo. Deve ter sido porque me empolguei em excesso com a peça antes de ir vê-la (vide momento catártico em remota sexta-feira). Acrescenta-se o fato de o texto ser denso, então é normal sair com uma sensação estranha. Não é fácil não escrever sobre o amor. Não é fácil pedir para alguém não escrever sobre o amor. Não é fácil não amar alguém que te ama tanto. Não é fácil amar tanto alguém que não te ama...
É impressionante como o "não escrever" sobre o amor pode transparecer tanto amor por trás. Também gostei das reflexões sobre o russo fora de sua terra natal. "Um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar". Sim.
Acho que, de certa maneira, a peça encerrou a tal catarse. É engraçado como tudo fazia sentido enquanto estava no meio da crise, mas agora estou de volta à normalidade e já me esqueci de tudo. Talvez quisesse esquecer tudo. Meu ego fala mais forte e põe seus mecanismos de defesa em execução.
Entender o amor? ninguém entende. Não foi feito para entender. Assim como peças de teatro e obras de arte: não se deve procurar significados racionais nelas. Para mim, teatro (no caso específico do post) sempre foi uma questão de sentidos, o que me provocou naquele momento, algo intransitivo. O amor também é assim. Por isso, não é possível não escrever sobre o amor quando se ama; uma simples reflexão sobre o tempo hoje pode transbordar de amor.
Não há explicação para o inexplicável; pode ser uma saída fácil, sim. Mas é a conclusão que me basta por hoje. Clichês são fundamentais e me perseguem. pra que fugir, então?
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